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Apostolado de Nossa Senhora das Lágrimas Brasil

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Dom Barreto, o Instituto e a Divina Providência

Você sabia que Dom Barreto nunca foi a Roma para solicitar religiosas para sua diocese? Acompanhe conosco relatos fidedignos da época, e saiba mais sobre a declaração feita por ele próprio, de que nunca havia pensado em fundar um instituto religioso. Boa leitura!

“Nunca pensei e nem alimentei a ideia de ser fundador […] a isso fui levado pelas mãos da Divina Providência” (Dom Barreto)

 

Após ter passado nove anos como bispo em Pelotas, e quando de seu regresso à Campinas em 1920 como o então segundo bispo desta diocese, Dom Barreto relatou: “…encontrei nesta cidade uma jovem de nome Maria Villac, que piedosa e vivendo em sua intimidade se considerava uma missionária de Jesus Crucificado [1]”.

De fato, desde o ano de 1917 Maria Villac já realizava apostolado com suas amigas, “…procurando incentivá-las a uma intensa vida espiritual e apostólica [2]”.

Em 1919 Maria Villac se propôs a fazer a via-sacra diariamente como devoção particular, motivada pelo desejo de sufragar a alma de seu pai, que havia falecido naquele ano [3].

“…e logo outras pessoas, a seu convite, se lhe uniram no piedoso exercício [da via-sacra nas matrizes de Campinas]. Sua fervorosa oração, seu aspecto natural de bondade, seu espírito sobrenatural, atraíam sempre maior número de companheiras, senhoras e moças, que a procuravam também em casa, para pedir-lhe conselhos e para meditações em comum.” [4]

O novo bispo de Campinas [Dom Barreto] viu com agrado esse grupo que crescia e se distinguia pela generosa vida espiritual. Maria Villac e suas companheiras se estimulavam no trabalho das virtudes, guiadas pelo zeloso sacerdote italiano Pe. Domingos Giovannini [5], bastante conhecido à época e muito procurado para aconselhamentos espirituais e confissões.

A partir da Sexta-Feira da Paixão do ano de 1922, esse grupo passou a se reunir mensalmente na Capela de Santa Cruz, do Convento das Irmãs Dominicanas, iniciando uma série de conferências para ouvir a palavra do seu diretor Pe. Giovannini. Ao bispo Dom Barreto eram dadas ciências desses acontecimentos [5].

A Associação [leiga] das Missionárias de Jesus Crucificado foi então erigida na Capela de Santa Cruz, no bairro Cambuí em Campinas, a 15 de setembro de 1922, na festa de Nossa Senhora das Dores [5].

A jovem Maria Villac passou a ser a presidente dessa associação. Para se ter uma ideia do crescimento frutuoso dessa associação, em 1922 o grupo inicial contou com a adesão de 62 moças e senhoras [5]. Contudo, já no ano de 1928, esse número havia crescido para 443 associadas leigas [6].

Como bispo diocesano da época, Dom Francisco de Campos Barreto acompanhava de perto essa associação, visitando-a inclusive quando reunidas na Capela de Santa Cruz. Ele, inclusive, aprovou seus pequenos estatutos aos 28 de abril de 1924, o que ocorreu antes de sua visita ad limina a Roma [8].

Com sua visão diferenciada, propôs que elas alargassem mais o campo de sua atividade religiosa, ampliando o campo de ação originalmente idealizado pela associação.

Chamando Maria Villac para conversar, Dom Barreto “mostrou-lhe o desejo de que a Associação que [ela] dirigia se dedicasse por um apostolado então de grande necessidade na Diocese: os Catecismos nos bairros e as Visitas Domiciliares de casa em casa, para incremento da vida piedosa nos lares [7]”.

 

“E assim a Associação teria também uma finalidade apostólica determinada.” [7]

 

Contudo, também “deviam se ocupar em primeiro lugar da própria santificação e depois se entregarem aos atos de piedade de seu programa [8]”.

Seguiu-se então a “famosa” visita ad limina de Dom Barreto a Roma, no ano de 1924. E, posteriormente à essa visita, Dom Barreto fez o seguinte registro:

“Foi em Roma que, conhecendo as Damas Catequistas Espanholas em seu belo e frutuoso apostolado, liguei os seus trabalhos às minhas missionárias, como passíveis de realizarem a mesma obra de zelo nesta diocese e quiçá no Brasil. E concebi o plano de que, se fosse da vontade de Deus, fazer das missionárias uma congregação religiosa.” [8]

Importante consignar aqui que Dom Barreto sempre deixou claro que nunca havia pensado em ser “Fundador de congregação alguma [9]”. Contudo, teve em Roma a inspiração de realizar trabalho semelhante com as missionárias leigas que ele já conhecia e acompanhava de perto em Campinas. Elas usariam hábito religioso apenas no convento, e vestimenta secular para quando fossem realizar as obras de zelo, de forma a facilitar o acesso das missionárias nas casas das pessoas.

Então, regressando dessa visita em Roma, Dom Barreto conversou com Maria Villac e, sem ainda nada contar a ela sobre sua inspiração, mandou “organizar um novo e complexo regulamento, estabelecendo um campo maior para a atividade das mesmas. Ordenei-lhes fundar e cuidar dos centros de catecismo nos bairros da cidade, visitar periódica e espontaneamente as casas dos bairros, visitar os doentes, cuidar da boa imprensa etc [12]”. Esse novo regulamento, remodelado, foi aprovado e novamente abençoado por Dom Barreto em 22 de dezembro de 1925.

Dom Barreto relatou que, somente no ano de 1926, após ele ter dado “maior expansão às missionárias e de reconhecer suas possibilidades [12]”, tendo confirmado então o “desenvolvimento da obra em suas várias manifestações”, é que externou à Maria Villac sua inspiração tida em Roma: “falei em particular com a senhorita Maria Villac sobre o meu projeto de fundar o Instituto, aproveitando de sua pessoa e das outras missionárias de boa vontade. O Instituto seria uma congregação religiosa nas normas das Damas Catequistas e com as variantes que eu julgasse convenientes”. Contudo, Maria Villac não aceitou inicialmente o convite do bispo: “Maria Villac ficou com receio e não me deu resposta satisfatória”.

Nesse mesmo ano de 1926, e após o Padre Domingos Giovannini ter sido transferido para outra cidade a pedido da ordem salesiana da qual fazia parte, Dom Barreto tornou-se o diretor espiritual das missionárias, assumindo a direção dos trabalhos das mulheres dessa associação.

Entendendo ele que “ou eu constituiria com elas uma congregação religiosa, ou então essa associação estaria votada a desaparecer, faltando Maria Villac ou minha assistência e meu interesse pessoal [13]”, Dom Barreto refez o convite a ela. Foi então que no dia 29 de setembro do ano de 1927, dia de São Miguel Arcanjo, Maria Villac finalmente aceitou o convite feito por Dom Barreto, de se tornar a primeira missionária do Instituto a ser fundado, e ao mesmo tempo de ser a sua madre fundadora vitalícia. Ela teve dois meses para convidar outros membros da associação para que ingressassem no Instituto. Conseguiu a adesão de três jovens, e a 25 de dezembro de 1927 Dom Barreto as consagrou ao Menino Jesus, em sua própria capela no Palácio Episcopal. Contudo, Amália Aguirre Queija ainda não constava desse grupo inicial.

A nova congregação religiosa a ser erigida em Campinas manteria o nome da associação leiga: Instituto das Missionárias Jesus Crucificado. Sobre colocar no novo instituto a ser criado o nome de Jesus Crucificado, Dom Barreto mencionou [14]: “título que segundo parece, não foi dado a nenhum outro instituto religioso. Sinal de grande predileção de Jesus pelo Instituto”. Dessa forma, a congregação destinada a ser de predileção de Jesus nasceria no ano seguinte em Campinas, e seria fundada por dois campineiros: ambos, Dom Barreto e Maria Villac, são nascidos neste município.

Ele deixou registrado de próprio punho, no Livro Tombo da Diocese de Campinas (1929) [10]:

 

“De propósito deixei para, depois da profissão da primeira turma, lançar aqui a história do Instituto das Missionárias de Jesus Crucificado. […] visto que considero o Instituto como obra não minha, mas sim do Sagrado Coração de Jesus, do qual fui e sou mero instrumento. Nunca pensei nem alimentei a ideia de ser fundador; no entanto, chegou o tempo em que a isso fui levado pelas mãos da Divina Providência, fundando a 3 de maio de 1928, depois de autorizado pela Santa Sé com o rescrito datado de 26 de março do mesmo ano. Santo Padre Pio XI [sic].” [10]

 

Cabe ressaltar que, em Campinas, o bispo Dom Barreto também dispendeu sua atenção para outras congregações femininas já existentes, que encontraram nele um grande incentivador de seus trabalhos. Dentre elas, a Congregação das Franciscanas do Coração de Maria, as Carmelitas Descalças e as Calvarianas [11]:

“Desde 1921, a congregação das Franciscanas do Coração de Maria encontraram nele um grande incentivador de seus trabalhos. Ele aprovou suas novas constituições e incentivou a transferência da casa mãe e do noviciado de Piracicaba para Campinas, promovendo para isso a construção do prédio que hoje é sede do Colégio Ave Maria. Além disso, confiou aos cuidados das franciscanas a condução do Externato São Francisco de Assis. Em 1926 fundou o Carmelo de Santa Terezinha do Menino Jesus, promovendo a construção de instalações adequadas às carmelitas descalças. As irmãs do Calvário se encontravam em Campinas desde os tempos de seu paroquiato em Santa Cruz [matriz velha] e graças ao seu incentivo haviam fundado o Colégio Sagrado Coração de Jesus. No tempo de seu episcopado [de Dom Barreto], elas inovavam seu apostolado com a criação do Asilo Santa Teresinha para crianças surdo-mudas”. [11]

 

Fontes:
[1,8,10,12,13] Citação feita de próprio punho por Dom Barreto no Livro Tombo da Diocese de Campinas, no ano de 1929 (1922-1934, fls. 51-53). In: Tecendo memórias, gestando futuro: História das Irmãs Negras e Indígenas Missionárias de Jesus Crucificado – MJC, Padre José Oscar Beozzo, Irmãs Raimunda Ribeiro da Costa, Maria Fidêncio do Espírito Santo e Geralda Ferreira Silva, Editora Paulinas, 1ª ed., São Paulo, 2009, [1] p. 44, [8] p. 45, [10] p. 43-44, [12] p. 46, [13] p. 47.
[3,6] Tecendo memórias, gestando futuro: História das Irmãs Negras e Indígenas Missionárias de Jesus Crucificado – MJC, Padre José Oscar Beozzo, Irmãs Raimunda Ribeiro da Costa, Maria Fidêncio do Espírito Santo e Geralda Ferreira Silva, Editora Paulinas, 1ª ed., São Paulo, 2009, [3] p. 51, [6] p. 78-79.
[2] Família de Paulo José Villac e Maria Clarice Marinho Villac, escrita por Irmã Sylvia Villac – MJC, 2005, p. 34, APMBVA. In: Irmã Amália e a devoção a Nossa Senhora das Lágrimas, Rita Elisa Sêda, Editora Imaculada, 6ª ed., 2025, p. 39.
[4,5,7,9] Jubileu de Prata do Instituto das Missionárias de Jesus Crucificado, 1953, [4] p. 118, [5] p. 120, [7] p. 121, [9] p. 123. Centro de Memória – Unicamp (CMU), Campinas.
[11] Tese de Licenciatura de Rafael Capelato: Francisco de Campos Barreto: Uma Resenha Biográfica, Fontes e Crítica Historiográfica, Pontifícia Universitá Gregoriana, Roma, 2011, p. 111. (veja aqui)
[14] Citação de Dom Francisco de Campos Barreto no documento intitulado A Origem do Instituto das Missionárias de Jesus Crucificado, Papéis Avulsos, p. 01. ACMC. In: Irmã Amália e a devoção a Nossa Senhora das Lágrimas, Rita Elisa Sêda, Editora Imaculada, 6ª ed., 2025, p. 44.

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